Organizador(es): Odete Jubilado & Ana Isabel Moniz
Edição: 2026
Páginas: 692
Editor: Edições Cosmos
ISBN: 9770871951008 26
Idioma: Português
Sinopse
No volume 27/28 da Dedalus estão plasmados grande parte dos contributos apresentados no VIII Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada com o tema Olhares cruzados: representações das epidemias nas artes. Da catástrofe à resiliência, que decorreu de 12 a 14 de Outubro de 2022, na Universidade de Évora, numa organização conjunta da Universidade de Évora e da Universidade da Madeira.
Assumindo uma perspectiva comparatista, procura-se neste conjunto de textos reflectir sobre as várias configurações das epidemias desde a Antiguidade até aos nossos dias, partindo de um contexto de indagação sobre o caos e a crise causados pelas pandemias. A secção subdivide-se em nove eixos temáticos: Epidemia e resiliência; Epidemia como alegoria da sociedade; Epidemia e distopia; Epidemia e declínio moral; O confinamento como motor de criatividade; Representações e releituras das diversas epidemias; Epidemia, catástrofe e trauma; Epidemia e testemunho; Pandemia, filosofia e sociedade de controle; Epidemia e arte digital; a que acrescem as habituais secções de Estudos e Recensões.
Ao longo dos tempos, as diferentes epidemias, de que podem ser exemplo a peste negra, a gripe espanhola, a cólera, a sida, foram concebidas como catástrofes que provocaram alterações profundas tanto nos modos de existência como nas formas de relacionamento humano. A pandemia da Covid-19 inscreveu-se na perspectiva de uma crise global que surpreendeu e estilhaçou a visão do mundo e do homem, causando traumas, medos, estados de angústia ao provocar rupturas inesperadas na cultura e na economia, entre outras áreas. Como ocorre, aliás, no caso das diversas artes (cinema, dança, fotografia, literatura, pintura, arte digital), que têm tido a capacidade de confrontar o homem com a estranheza provocada por distintas epidemias. O que implica dialogar com diferentes linguagens, explorar o valor alegórico do caos, denunciar as disfuncionalidades das sociedades, bem como questionar o valor da Humanidade. A epidemia surge, assim, como uma experiência-limite de incerteza e de imprevisibilidade que interroga a relação do homem com a sua finitude.
Relembremos Decameron (1348-1353), obra em que Bocaccio encenou o confinamento provocado pela peste negra, em que sete mulheres e três homens, confinados numa casa de campo, contam histórias para afastar a morte, mas também as releituras da obra canónica de Bocaccio, como A Tale from Decameron (1916), de John William Waterhouse, e ainda o filme Il Decameron (1971), escrito e dirigido por Piero Paolo Pasolini.
Acresce a colecção de contos The Decameron Project da revista The New York Times Magazine (2020), que reuniu textos de vinte e nove escritores que, inspirados no modelo de Bocaccio, reflectiram sobre os impactos da pandemia da Covid-19, imaginando o inimaginável através da Literatura como estética da resiliência.
Numa óptica comparatista que relaciona a literatura, as artes visuais, a cultura, a história, a filosofia, a antropologia e a psicologia, pretende-se repensar como as diferentes narrativas exploram a epidemia e a sua superação. Disso, são exemplos textos como: A Journal of the Plague Year (1722) de Daniel Defoe; La Peste (1947) de Albert Camus ou Ensaio sobre a Cegueira (1995) de José Saramago, que constroem uma poética da catarse, oferecendo ao leitor uma viagem em busca do sentido de isolamento, do exílio, da perda da comunidade, do medo da doença e do confronto com a morte.
Nas artes visuais, O Triunfo da Morte (1562), de Pieter Brueghel, também conhecido como o Velho, explora a devastação colectiva associada a uma pandemia, apresentada como uma batalha em que exércitos de esqueletos são comandados pela morte, segundo uma leitura renascentista. Por sua vez, a arte expressionista de Egon Schiele, em A Família (1918), retrata como a gripe espanhola fragilizou o seu corpo e o da sua mulher. Inscrita na perspectiva da Bioarte, escultura e arte digital, a artista britânica Anna Dumitriu impregnou na sua instalação Plague Dress (2018) o tecido de um vestido do século XVII com o DNA da bactéria Yesinia pestis, extraído das bactérias mortas da praga, num jogo conceptual de provocação. Numa exaltação da empatia, diferentes artistas de arte urbana como Vhils, Banksy e Lewis Miller prestaram tributo aos profissionais de saúde para enaltecerem o sentimento de compaixão, de coesão e de comunidade no modo como estes enfrentaram a pandemia da Covid-19.
Também na música, Igor Stravinsky reinterpreta na sua ópera Oedipe Rex (1927) a tragédia de Sófocles numa Tebas assolada pela peste.
Os textos de Mary Shelley, The Last Man (1821), The Scarlet Plague (1912), de Jack London e o romance Fever (2016), de Deon Meyer, desenvolvem o tema da epidemia, associado ao fim da humanidade, assumindo a função antecipadora de documentos que contribuem para antever o futuro. Nesta mesma perspectiva apocalíptica, o filme Contagion (2011), de Steven Soderbergh, surge como uma profecia do coronavírus ao mostrar o rápido progresso de um vírus letal, transmissível pelo ar e as diferentes tentativas de investigadores, médicos e funcionários de saúde pública para enfrentar e combater a doença.
Tal como a narrativa pode ser perspectivada como um remédio contra a epidemia que reflecte sobre os seus efeitos, como argumenta Antoine Compagnon (2020), também as artes constituem um modelo de reflexão crítica para alcançar modelos alternativos de vida perante a experiência frenética das sociedades contemporâneas antes da propagação do vírus da Covid-19. Caracterizadas pela capacidade de reinvenção, as artes incentivam o repensar das epidemias como mecanismos catalisadores de mudança em busca de um novo humanismo.
Odete Jubilado & Ana Isabel Moniz